TEXTOS E REFLEXÕES


AS OBRAS E AS MISSÕES DO PADRE IBIAPINA
Diógenes Faustino do Nascimento[1]

1. Introdução

Com a exposição desse nosso estudo objetivamos socializar novos saberes e conhecimentos a respeito do beato e padre José Antônio de Maria Ibiapina. Expondo aspectos relevantes da sua passagem e contribuições para a igreja católica na Paraíba. Muitas obras e textos foram e continuarão sendo escritas e publicadas, comentando e destacando a vida e as obras desse “missionário do nordeste”, do “peregrino da caridade”. Nos esforçamos em oferecer algo mais específico deste nosso ambiente de religiosidade, o Estado da Paraíba (antiga Paraíba do Norte) e suas relações com o cotidiano do povo das missões.
O padre José Antônio de Maria Ibiapina suscitou uma nova práxi religiosa de resgate e promoção da dignidade e da valorização das experiências humanas por intermédio das Casas de Caridade e das demais obras missionárias desenvolvidas nas províncias da Paraíba, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Ceará, Piauí e Alagoas entre os anos de 1856 e 1883. Exerceu o sacerdócio aos 47 anos depois de tantas frustrações com a carreira política, jurídica e ao presenciar tantas injustiças sociais. 
Sua prática fundava-se numa espiritualidade herdeira da chamada ‘devoção moderna’, ou ‘vida comum’, um movimento leigo já atuante no sul da atual Holanda. O movimento da devoção moderna tem seu início no século XIV, nos Países Baixos, desde os últimos séculos da idade média (séculos XIV e XV). A ideia básica é que o ‘mundo’ também é lugar de santificação.  Tomás de Kempis era um dos autores decisivos dessa nova espiritualidade, apontando com sua reflexão o caminho da interioridade. Os reformadores pensavam que a vivência espiritual por um viés mais subjetivo levaria às respostas e a superar os traumas que a modernidade não respondia nem solucionavam.
As Casas de Caridades (CC), num total de 22, eram ambientes de formação completa se analisadas aos olhos dos Pioneiros da Educação Nova[2]. Para Mariz[3] essas CC eram centros de formação com curso de alfabetização, de prendas domésticas, prática agrícola, ofícios de artes além das ordinárias práticas religiosas que garantiam o equilíbrio laboral e espiritual fomentado por seu fundador. Dom José Maria Pires, também seguidor e editor das obras e vida do mestre apóstolo nos afirma:

[...] que se Ibiapina dispusesse dos recursos e assessoria que ele dispunha na época teria se tornado não só o pai dos pobres que o foi, mas o prócere de uma profunda transformação social dos males sociais que combatia e dos obstáculos à superação do subdesenvolvimento” (Padre Ibiapina e a Igreja dos pobres. São Paulo: Paulinas, 1984, p. 19.) 


Vivia rodeado de parentes apaixonados pelos ideais da Revolução Francesa. Seu pai morreu na luta da Confederação do Equador e seu irmão, também revolucionário, foi exilado para a Ilha Fernão de Noronha, onde faleceu ‘em luta com as ondas’ (HOORNAERT, 2006, p. 65).  O sofrimento, a fome e a precariedade de vida fazem parte da experiência do Padre Ibiapina que com a morte de sua mãe e de seu pai teve que abdicar de sua carreira de advogado e jurista para cuidar de seus irmãos, órfãos como ele (LIMA, 2011, p. 21-32). As desilusões com a intervenção dos coronéis na política local, com o magistrado e a advocacia levaram Ibiapina a retirar-se de cena por três anos (1850-1853). Foi este o contexto que conduziu o padre Ibiapina para um agir renovado[4] na ação missionária.
           Carvalho (2008, p. 31) comenta esse período como sendo o mais determinante da vida do missionário. Para ele, esse foi um período que serviu para analisar e aferir suas reais intenções vocacionais. Hoje esse ato é chamado de “deserto” entre os agentes de religiosidade (padres, pastores, presbíteros etc.), mas na época era dito “pedra de toque”[5].  Ao escrever sobre a Carta de José Antônio de Maria Ibiapina[6], a Profa. Dra. Danielle Ventura[7] chama nossa atenção para percebermos na fundação das Casas e do périplo catequético os elementos característicos do agir do padre Ibiapina e que lhe possibilitava reunir milhões de pessoas entorno das suas obras e palavras. Percepção esta que o levou a ser conhecido como “O Missionário do Nordeste”, termo apregoado por José Comblin (1996, p. 21-26).
Aos 70 anos uma paralisia afastava o padre Ibiapina das suas obras e de celebrar missa. Faleceu no dia 19 de fevereiro de 1883, aos 77 anos na Casa de Santa Fé em Arara na Paraíba, dos quais 30 foram dedicados ao povo nordestino. E desde então sua vida e obra é objeto de pesquisa em Universidades e de mitificação pelo povo nordestino que visita o Santuário em Santa Fé. Seus restos mortais foram depositados no cemitério do Santuário Ibiapina Santa Fé, Solânea-Pb. Com a abertura do processo de canonização os restos mortais foram transferidos para uma urna e depositada dentro da Capela do Santuário.
Depois de ter percorrido durante 30 anos várias regiões do nordeste brasileiro, o padre escolheu a Casa de Santa Fé , um pequeno casebre para terminar seus dias. Era o ano de 1883 quando “o Ceará perdeu um de seus distinctos filhos e o paiz um homem assaz notável”, foi assim que a imprensa paraibana, especificamente o jornal Liberal Paraibano se despedia do padre Ibiapina (apud MARIZ, 1997, p. 189).
O Santuário Ibiapina Santa Fé está localizado na divisa entre os municípios de Solânea e Arara, na microrregião do Curimataú Oriental. No estado da Paraíba, distante há 52 km de Campina Grande e 158 km de João Pessoa.
O ambiente histórico no entorno das obras e milagres do missionário e do padre José Antônio de Maria Ibiapina tem características tanto históricas quanto religiosas que referendam a nossa assertiva. suas obras e sua biografia é constantemente revivida, reatualizada, afim de resgatar uma experiência da qual não vivenciaram “in illo tempore”; é uma busca por uma experiência religiosa aberta e capaz de sacralizar o real perceptível.

Referências bibliográficas
1.      ARAUJO, F. Sadoc de. Padre Ibiapina: Peregrino Da Caridade. São Paulo: Paulinas, 1996.
2.      CARVALHO, Ernando Teixeira de. A Missão Ibiapina. Passo Fundo: Berthier, 2008. 
4.  NOGUEIRA, Paulino. O Padre Ibiapina. In: Revista do Instituto do Ceará - ANNO II -  1888, p. 157 – 220. 







[1] Doutorando em Ciências das Religiões. Licenciatura plena em História pela Universidade Estadual Vale do Acaraú- CE/Unavida- JP. Leciona História Geral e do Brasil, e Filosofia na Secretaria de Educação do Estado da Paraíba. Aperfeiçoamento na docência da escola de tempo integral- UFPB/PPGDH. Membro do Grupo Videlicet de Estudos em Religiões, Intolerância e Imaginário –UFPB/PPGCR. E-mail: diogenesnascimento@hotmail.com
[2] Movimento que surgiu no início do século XX no Brasil, assinado por vinte e seis educadores que propunha uma virada educacional no sistema de ensino brasileiro, dentre eles destaque para o teólogo Plínio Salgado, Anísio Teixeira, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Cristovam Buarque e na Paraíba com A escola do Campo de José Comblim, (nota do autor do artigo). cf. Fernando de Azevedo... [et al.]: Manifestos dos pioneiros da Educação Nova 1932 e dos educadores 1959. Recife: Massangana, 2010.
[3]CELSO, Mariz. Ibiapina, um Apóstolo Do Nordeste. 3ª ed, João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 1997. p. 205, 210, 257, passim.
[4] Compreendemos a ação catequética do padre Ibiapina como um agir renovado por se tratar de um resgate das práticas catequéticas já praticadas na Holanda no século XV sendo resgatada e incorporada a realidade do ambiente religioso no qual o missionário atuou, ou seja, trata-se de uma releitura da Devotio Moderna. Conferir glossário no fim desta dissertação.
[5] “[... ] qualquer pedra dura e escura usada pelos joalheiros para avaliar a pureza dos metais”
[6] CARTA de José Antônio de Maria Ibiapina escrita em 23 de março de 1875 em Santa Fé para o público em geral, analisada no artigo A Mitocrítica da Profa. Dra. Danielle Ventura como abordagem metodológica sobre a conduta moral do Padre Ibiapina
[7] Mestre em Ciências das Religiões pela UFPB, Doutora em ciências da religião pela PUC-GO.

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